Literatura Para Crianças: Espelho Da Sociedade Brasileira

Trabalho publicado no congresso Pedagogia 2007, em Havana, Cuba

A velhice não é apenas uma manifestação de subjetividade, isto é, de sentir-se velho, mas uma realidade biológica que se relaciona de forma profunda com o contexto social e histórico. Pode-se dizer, também, que com o avançar da idade acontecem mudanças nos papéis sociais dos indivíduos de cada sociedade com seus valores e princípios. Dessa forma, é melhor pensar que há uma complexa interação entre idade biológica e contexto social.

A população idosa mundial tem crescido de modo significativo, redesenhando o perfil etário dos países e, conseqüentemente, promovendo as adaptações sociais necessárias. No caso de países em desenvolvimento, como o Brasil, a pirâmide etária revela um aumento significativo de pessoas idosas. A situação da velhice se agrava, pois os indicadores sociais denunciam graves problemas estruturais no Brasil para lidar com esse novo perfil etário.

Diante desse quadro, a chamada "terceira idade" é uma área de estudos que precisa de incremento face às perspectivas futuras para o perfil etário do país. Sendo assim, o presente trabalho insere-se nesse contexto de estudos porque entrelaça infância, velhice e literatura através da teoria das representações sociais. Com sua origem nos estudos sociológicos de Emile Durkheim, é na Psicologia Social que a teoria das representações sociais vai ser desenvolvida. O psicossociólogo Serge Moscovici lança em La Psycanalyse, son image, son public, publicado em 1961, a matriz da teoria das representações sociais, que só receberá ênfase a partir do início dos anos 80. A proposta é trabalhar com o pensamento social de maneira dinâmica e em sua diversidade, a fim de entender como os indivíduos constroem-se a partir da inserção social e como tornam-se agentes da constituição de sua própria realidade (MOSCOVICI, 1978: 35).

Moscovici conceituou representação social como processo de assimilação e construção da realidade pelos indivíduos. Dessa forma, ele estabelece uma relação maior entre indivíduo e sociedade, não considerando representação social como uma imposição como propusera Durkheim. À luz do mito da caverna de Platão, toda representação (tornar presente de novo) é uma forma de visão da realidade, uma interpretação. As representações sociais são culturalmente construídas, mas não são estáticas uma vez que os atores sociais podem interagir nesse processo. As pessoas também criam representações individuais, que podem ratificar ou não as representações socialmente constituídas. Por conta disso, deve-se entender os leitores (tomados aqui em seu sentido mais amplo – leitores do mundo) como seres críticos e aptos à assimilação e também à mudança em relação a esses paradigmas sociais.

No âmbito da literatura, as representações podem ser consideradas como produção cultural, na medida em que realçam os signos de uma sociedade e determinam limites entre o desejável e o indesejável. Por isso mesmo tornam-se um dos elementos mais significativos para a formação do ideário cultural de uma sociedade, porque atuam na construção, difusão e alteração das representações. O foco deste trabalho recai numa área muito importante da literatura, aquela destinada às crianças. Com a crença de que um indivíduo de qualquer idade, ao ler ou ouvir uma história, dialoga não só com quem escreve, mas com uma visão de mundo, destaca-se uma preocupação especial com o público infantil. A literatura infantil, propriamente dita, apareceu durante o século XVII, época em que houve mudanças na estrutura da sociedade, com a ascensão da família burguesa. A emergência dessa literatura associa-se, desde as origens, a uma função utilitáriopedagógica, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em divulgadoras dos novos ideais burgueses.

Até bem pouco tempo, a literatura infantil era considerada como um gênero secundário, vista pelo adulto como algo pueril (nivelada ao brinquedo) ou útil (forma de entretenimento). A valorização da literatura infantil, como formadora de consciência dentro da vida cultural das sociedades, é bem recente. Com base nessas considerações, pode-se depreender o poder da literatura infantil, pois apresenta um potencial de manipulação de ideologias em formação. Percebe-se, portanto, que a literatura infantil esteve durante praticamente todo seu percurso histórico a serviço de ratificar as representações sociais canônicas que valorizavam a heterossexualidade, os princípios ocidentais sobretudo europeus, o capitalismo, a cor branca, a religião católica e a busca da eterna juventude. É nesse sentido que Simone de Beauvoir denuncia a "conspiração do silêncio" de alguns grupos sociais que perpetuam uma imagem desvalorizadora da velhice como fase temida e apavorante da vida (BEAUVOIR, 1990: 79).

As considerações feitas neste estudo têm por base um corpus de 70 obras literárias infantis brasileiras contemporâneas. Em função do caráter internacional do congresso em que se ambienta esta publicação, serão enfocadas as principais representações depreendidas através da base de estudos, não havendo detalhamento específico acerca do enredo dos títulos em exame.

Em função da crescente preocupação com a velhice, as obras literárias espelham a pluralidade de papéis sociais assumidos pelas pessoas mais idosas. A constituição da idéia de velhice no Brasil está em franco processo e reflete-se em todas as manifestações do pensamento humano, inclusive a literatura. Diante da análise do corpus, foi possível identificar algumas representações a que a velhice está associada na literatura infantil brasileira. A seguir, serão propostos os principais papéis depreendidos nesse levantamento.

SOZINHO

Muitos idosos brasileiros vivem sós enquanto alguns estão em companhia de suas famílias, mas essa condição não é garantia de satisfação. Isso se deve ao fato de a pessoa de mais idade não ter garantidos sua autonomia e seu papel dentro da família. Muitos são tratados como agregados aos quais não cabe qualquer poder de decisão perante a família.

Manoel de Barros em seu livro Fazedor de amanhecer (2001) fala do abandono em um poema chamado "Avô":

Meu avô dava grandeza ao abandono.
Era com ele que vinham os ventos a conversar
Sentava-se o velho sobre uma pedra nos fundos do quintal
E vinham as pombas e vinham as moscas a conversar.
Saía do fundo do quintal pra dentro da casa
E vinham os gatos a conversar com ele.
Tenho certeza que o meu avô enriquecia a palavra abandono
Ele ampliava a solidão dessa palavra.

Para não se sentirem sós, muitos idosos vivem em função de animais de estimação ou à espera da visita dos netos com sua vivacidade. Assim, há todo um ritual de confecção de doces, construção de brinquedos e concessões para as crianças. São muitos os livros que mostram esse processo de preparação e ansiosa espera. Nesse sentido, a casa dos avós torna-se uma espécie de parque de diversões, com o fascínio infantil pelo culto à memória de cada objeto que guarda uma história. Destacam-se nesse grupo duas obras que revelam com detalhes a casa da avó: A cristaleira (1999) de Graziela Bozano Hetzel e Bisa Bia, bisa Bel (1985), de Ana Maria Machado.

SÁBIO E CONTADOR DE HISTÓRIAS

Com o advento da sociedade burguesa, a representação de extrema sabedoria associada à velhice foi perdendo o ar de sacralidade. A partir do referencial histórico, essa representação da velhice sábia remonta aos contos tradicionais como um resgate da imagem do contador de histórias (Contos da Mamãe Gansa – Charles Perrault). Apesar da extrema valorização da informação e com as mudanças tecnológicas constantes, essa imagem da velhice como fonte de sabedoria se mantém presente na literatura.

Nessa linha, não se pode deixar de resgatar a importância da personagem D. Benta de Monteiro Lobato, exímia contadora de histórias a quem cabe a função indireta de educadora. Com conselhos e conversas, a velhice assume o papel difusor das tradições e mantenedor do referencial cultural daquele grupo social. Diante da corrida da vida moderna, o tempo dos adultos para ouvir as fabulosas histórias da família tornase cada vez menor. As crianças desejam inserir-se nessas histórias familiares, deixar também sua marca naquele grupo a que pertencem para virarem histórias no futuro. Então faz-se a união perfeita: quem tem muitas memórias a reviver e tempo para contálas com quem está ávido por ser e ter memórias e tem tempo para ouvi-las.

Pode ilustrar essa representação o livro Por parte de pai (1995), de Bartolomeu Campos de Queirós. Com muito lirismo, o autor revela a imensa admiração de um menino do interior por seu avô, que registrava a história da cidade nas paredes, um verdadeiro livro-casa. Revelando outra atividade muito associada à velhice, a escritora Tatiana Belinky, em seu livro autobiográfico Bidínsula e outros retalhos (1990), costura histórias de vida. Através da confecção de uma colcha, a história estabelece um elo entre os momentos vividos e pedaços de pano que integram a grande colcha de retalhos que é a vida.

PERDA DE MEMÓRIA

Ecléa Bosi em Memória e sociedade: lembrança de velhos (1987) trata a relação do envelhecimento com as sociedades de forma bastante competente. Nesse livro de referência para estudos sobre memória e velhice no Brasil, a autora entende a função social da velhice com o lembrar associado ao aconselhar – "memini moneo" – portanto a memória é o grande tesouro da velhice.

Segundo o conceito freudiano de memória, o passado retomado é recriado onde atuam componentes imaginativos, daí a necessidade de verbalizar as histórias por parte dos velhos. Percebe-se, além da preocupação de manutenção dessa memória cultural, uma preocupação com a perda da capacidade de relembrar fatos passados. Henri Bergson distingue memória hábito ou orgânica, ligada a ações habituais, e memória-lembrança ou psíquica, ligada às emoções que retoma o passado mediante ligações. A grande preocupação na velhice é a perda dessa memória-lembrança e todos os elos afetivos que ela representa.

Nessa linha, há livros que retratam a agonia da perda paulatina da capacidade mnemônica, como A vovó distraída (1991) de Regina Lúcia Pires Nemer. O eufemismo na escolha do adjetivo "distraída" não dramatiza a questão na história dessa senhora que é chamada de louca porque confunde um cão com um leão que leva para passear. Os netos não se abalam com os esquecimentos e freqüentes trocas da avó, até se divertem com eles. É esse mesmo adjetivo "distraída" que Tatiana Belinky usa em A alegre vovó Guida que é um bocado distraída (1988), para retratar as trocas que a senhora faz no seu cotidiano: coloca leite no sapato, peruca no pé, óculos na sopa etc. Tais confusões também não são apresentadas como um problema e sim como um motivo de galhofa.

BRUXOS E MISTERIOSOS

A imagem de várias bruxas dos contos tradicionais povoam o imaginário desde os contos tradicionais da Idade Média. Perrault e os Irmãos Grimm em diversas histórias registraram essas figuras perigosas e assustadoras, como a bruxa de João e Maria ou a madrasta de Branca de Neve. Até para ratificar um desejo de afastamento da velhice, o ideário popular brasileiro contém em seu acervo oral várias histórias em que as personagens velhas são apavorantes.

No livro A mãe da mãe da minha mãe (1998) de Terezinha Alvarenga, a imagem da velhice associada a uma bruxa passa por um processo de desconstrução, com a aproximação da menina de 5 anos e sua bisavó. A descrição da primeira impressão da bisavó assusta: "De casaco escuro, saia preta, meias grossas, sapatos de lã fechados, mais curvada que galhos de café, surgiu das sombras uma corcunda de tanto tempo e cabelos enrolados em coque. (...) aqueles olhos brilharam no escuro". (p. 4) Parece haver uma construção social de medo até em imagens de cultura popular como o velho do saco que rouba criancinhas, daí a dificuldade de visualização. Em O velho que trazia a noite (1995) de Sérgio Capparelli, a figura do velho é aterradora e conta com uma perna de pau. A mãe do menino diz ser esse velho que traz a noite e o menino associa essa figura ao tal velho do saco da cultura popular.

Ana Maria Machado problematiza essa representação social mística associada à velhice e que gera medo nas crianças em seu livro A velha misteriosa (1994). Um grupo de meninos ficava em frente à casa da senhora e viram-na mexendo um caldeirão. Como um reflexo dessa imagem culturalmente construída, associaram a senhora a uma bruxa de imediato. Só se desfaz essa imagem quando uma das crianças resolve ir à casa da senhora, pois afirma que não conhece uma velha que não seja boazinha. No final, descobre-se que Tia Dolinha era uma doceira que aumentava sua renda com essa atividade que dependia do caldeirão. Indiretamente, percebe-se o registro de que a velhice ainda trabalha durante a aposentadoria para complementar a renda paga pelo sistema de previdência social.

Como fechamento desta abordagem, convém ressaltar que a literatura infantil, por seu papel de iniciar o ser humano no universo literário, deve ser um instrumento para a expansão da capacidade de analisar o mundo, sem estar a serviço de qualquer interesse.

A partir das representações dadas às pessoas idosas, constrói-se um imaginário social em que a velhice associa-se às perdas a ela relacionadas, ou transmite bondade e candura, com uma relação muito próxima com a infância. Essa visão dicotomizada não condiz com a realidade e já não atende aos anseios dos pequenos leitores, cada vez mais críticos.

De um modo geral, tomando por base o corpus estudado, conclui-se que os valores apresentados pela literatura infantil brasileira dos últimos anos refletem-se na formação de uma representação com conotações positivas. Dessa maneira, muito há que se fazer para se erradicar a "conspiração do silêncio" levantada por Simone de Beauvoir, mesmo junto ao público infantil.

Livros que criam estereótipos da velhice sempre feliz e sem problemas não levam a uma visão crítica do que representa a velhice para a sociedade brasileira contemporânea. Mesmo com a falta de autonomia que muitas vezes se impõe à velhice, crê-se que é imprescindível resgatar o papel social da chamada "idade de ouro". Para isso, a literatura infantil brasileira oferece autores de sensibilidade para conciliar os problemas reais vividos nessa fase da vida com a fantasia, indispensável ao universo infantil.

Com efeito, a principal colaboração desta investigação foi mostrar que a literatura infantil brasileira reflete de forma significativa essa afinidade entre velhice e infância. O desejo principal que fica aqui como um registro é de que se permita ao ser da velhice ocupar com honra o espaço que sempre foi seu: sabedoria por experiência.

Referencias bibliográficas

ALVARENGA, Terezinha. A mãe da mãe da minha mãe. Belo Horizonte: Miguilim, 1998.

BARROS, Manoel de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001.

BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.

BELINKY, Tatiana. A alegre vovó Guida que é um bocado distraída. São Paulo: Editora do Brasil, 1988.

__________. Bidínsula e outros retalhos. São Paulo: Atual, 1990.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz – Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

CAPPARELLI, Sérgio. O velho que trazia a noite. Porto Alegre: Kuarup, 1995.

DURKHEIM, Emile. "Representações individuais e representações coletivas". In.: __________. Sociologia e filosofia. São Paulo: Ícone, 2004.

HETZEL, Graziela Bozano. A cristaleira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

MACHADO, Ana Maria. Bisa Bia, bisa Bel. Rio de Janeiro: Salamandra, 1985.

__________ . A velha misteriosa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1994.

MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro. Zahar, 1978.

NEMER, Regina Lucia Pires. A vovó distraída. Rio de Janeiro: Ed. Didática e Científica, 1991.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Por parte de pai. Belo Horizonte: RHJ, 1995.


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