Brincando de ser adulto
Trabalho publicado na Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades da Unigranrio, Volume VI, no. XXI, Janeiro - Abril-Junho de 2007
Brincando as crianças aprendem a viver, porque simulam situações em que poderão se encontrar como adultos. E é por meio da ficção que nós, adultos, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente.
Umberto Eco
O ato de brincar não representa apenas um momento de ócio da criança, ele é normal durante a infância. Em meio a essa atividade tipicamente pueril, o infante também descobre os valores do mundo que o cerca e, assim, constrói-se como indivíduo pertencente a um grupo social. Dessa forma, pode-se conceber a brincadeira como um dos elementos responsáveis pelo enraizamento de valores culturais. A transmissão desses princípios é feita de geração para geração e, atualmente, bastante influenciada pelos meios de comunicação.
Um dos maiores especialistas no mundo em jogos e brinquedos, o filósofo e antropólogo francês Gilles Brougère afirma que a brincadeira não é inata e pressupõe uma aprendizagem social. Segundo o autor,
A criança está inserida, desde o seu nascimento, num contexto social e seus comportamentos estão impregnados por essa imersão inevitável. Não existe na criança uma brincadeira natural. A brincadeira é um processo de relações interindividuais, portanto de cultura.
BOUGÈRE, 2004, p. 97
Justamente por esse caráter sócio-cultural, parece haver consenso entre diversas áreas do saber quanto à relevância do ato de brincar para o desenvolvimento humano. Por conta disso, multiplicam-se os estudos acerca do assunto ligados a Sociologia, Antropologia, Medicina, Psicologia dentre outras áreas, além daquelas afins à Educação. Percebe-se o reconhecimento da importância de brincar também nas leis brasileiras, como registra o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (BRASIL, Lei Federal nº 8.069). No capítulo II "Do direito à liberdade, ao respeito e à dignidade" do ECA, o artigo 16 registra em seu inciso IV que "brincar, praticar esportes e divertir-se" são aspectos que integram o direito à liberdade.
Dada a importância que as sociedades aferem às atividades lúdicas, vários autores relacionam a evolução humana às brincadeiras [i]. A fim de traçar a História social da criança e da família (1981), Philippe Ariès dedica-se ao assunto no capítulo "Pequena contribuição à história dos jogos e brincadeiras". Nele, o historiador registra que, na sociedade medieval, a distinção de infância de fato não existia, assim adultos e crianças compartilhavam não só trabalho, mas também jogos e brincadeiras. Quanto à função social dessas atividades lúdicas, Ariès (1981) comenta que
Na sociedade antiga, o trabalho não ocupava tanto tempo do dia, nem tinha tanta importância na opinião comum: não tinha o valor existencial que lhe atribuímos há pouco mais de um século. Mal podemos dizer que tivesse o mesmo sentido. Por outro lado, os jogos e divertimentos estendiam-se muito além dos momentos furtivos que lhes dedicamos: formavam um dos principais meios de que dispunha uma sociedade para estreitar seus laços coletivos, para sentir-se unida.
p. 51
Dessa forma, a constituição de uma sociedade baseada no trabalho acaba por afastar, paulatinamente, os adultos de brincadeiras e jogos que passam a ser vistos como perda de tempo e atividades tipicamente infantis. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, vai surgindo um novo conceito de infância que precisa ser educada e ter sua moral preservada, além de receber um tratamento diferenciado em relação aos adultos. Nesse contexto, as atividades lúdicas, sobretudo os jogos, começam a ser utilizados com finalidade de incutir valores sociais em crianças e jovens de forma subliminar.
Considerando, portanto, que brincadeiras são recursos usados pelas crianças como possibilidade de compreensão do mundo que as cerca, é proposta deste trabalho observar como Ana Maria Machado dimensiona essa questão através da literatura. São vários os livros da autora que fazem referência a brincadeiras, jogos e brinquedos. Oriunda de uma família grande que passava férias reunida numa casa de praia, Ana Maria Machado conhece bem várias das chamadas brincadeiras tradicionais. Dessa forma, pique-bandeira, cantigas de roda, polícia e ladrão, dedo mindinho, dentre muitas outras atividades lúdicas povoam as histórias da escritora.
Em função do grande número de títulos de Ana Maria Machado que focalizam brincadeiras, o presente estudo deter-se-á numa análise mais aprofundada de uma das mais de 150 obras publicadas pela escritora. O título escolhido foi Bisa Bia, bisa Bel, de 1982, que é um dos livros mais vendidos da autora e também um dos mais editados no exterior.
Através do fio da lembrança, a narrativa de Bisa Bia, bisa Bel costura histórias de quatro mulheres da mesma família: Beatriz (Bia), sua neta, sua bisneta Isabel (Bel) e a bisneta de Isabel (Beta). A obra une as três pontas do tempo (passado, presente e futuro) que coexistem na personagem protagonista Isabel, através das vozes imaginárias de Bia e Beta. Em meio a essa "trança de gente" [ii] urdida por Ana Maria Machado, revelam-se tensões sobretudo no que diz respeito ao comportamento feminino e às expectativas sociais para as mulheres. Dentre os vários elementos textuais usados nesse processo, destacam-se as brincadeiras ligadas a papéis femininos e masculinos.
A história da menina Isabel recebe destaque especial no capítulo "Garotas que mudam o mundo", integrante do livro Como e por que ler a literatura infantil brasileira (ZILBERMAN, 2005). A respeito da temática do livro, destaca Regina Zilberman, uma das maiores especialistas brasileiras em literatura para crianças:
Bisa Bia Bisa Bel é o que se poderia chamar um livro feminista, não apenas porque traduz o processo de independência da mulher ao longo da história, marchando do convencionalismo e obediência de Bia à completa autonomia e autoconfiança de Beta. Mas também porque elege um ângulo feminino para traduzir essas questões, revelando como o processo de liberação nasce de dentro para fora, não por ensinamento, mas enquanto resultado das experiências vividas.
2005, p. 85
Assim, através do contraste das experiências vividas por Isabel (presente) e bisa Bia (passado) e projetadas por Beta (futuro), a menina amadurece e rejeita imposições quanto ao papel de dependência e fragilidade atribuído à figura feminina. Na narrativa, pode-se perceber esse contraste de gerações quando a voz de Bia recrimina a participação de Isabel na brincadeira de pique-bandeira, compartilhada com meninos.
— Ah, menina, não gosto quando você fica correndo desse jeito, pulando assim nessas brincadeiras de menino. Acho muito melhor quando você fica quieta e sossegada num canto, como uma mocinha bonita e bem comportada.
MACHADO, 1987, p. 18
Segundo o filósofo francês Michel Foucault [iii], uma das instâncias em que se projetam as relações microfísicas de poder é o corpo. Assim, muitas sociedades impõem restrições aos corpos e atitudes femininos ainda que não haja fundamentação biológica para isso.
Uma das limitações culturalmente impostas categoriza a brincadeira de subir em árvores como um ato tipicamente masculino. Essa questão é problematizada por Ana Maria Machado num capítulo chamado "Meninas que assoviam" [iv]. Para trazer à baila a discussão, a estrutura narrativa contrasta o posicionamento de duas figuras femininas, Isabel e Marcela, que se rivalizam por causa da atenção do menino Sérgio. Enquanto a protagonista da história não se prende muito às limitações impostas a "mocinhas", a colega assume uma posição de dependência, reduplicando a idéia de fragilidade feminina. No fragmento a seguir, nota-se como são caracterizadas as duas meninas.
Bem moleca mesmo. Num instante [Isabel] estava encarapitada no muro, vendo aquela chata da Marcela, toda frosô, arrumada numa roupa de butique, fivela de florzinha no cabelo, falando mole, cheia de nhém-nhém-nhém, jogando sorrisos para o Sérgio.
MACHADO, 1982, p. 31-32 – acréscimo nosso
A menina-moleca Isabel, de cima do muro [v], observa como Marcela faz o tipo bem-comportada, tido como ideal pela "voz" do passado de bisa Bia. Numa demonstração do que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de "impotência apreendida", Marcela enumera as dificuldades envolvidas no processo de aquisição das goiabas, para concluir que subir em árvores não era "brincadeira de menina". Além disso, havia uma proibição expressa da mãe para que ela não maculasse sua aparência arrumadinha: "— Mamãe disse para eu não me sujar, que ia estragar minha roupa toda. E eu nem sei fazer essas coisas de moleque..." (MACHADO, 1982, p. 32).
Conforme já analisara a escritora francesa Simone de Beauvoir em 1949, a recomendação materna reduplica o poder androcêntrico que impõe o controle do corpo feminino. Assim, as restrições sociais impostas ao pleno exercício da liberdade feminina impedem que a menina-boneca Marcela suba na árvore e cresça enquanto sujeito.
Tratam-na como uma boneca viva e recusam-lhe a liberdade; fecha-se assim um círculo vicioso, pois quanto menos exercer sua liberdade para compreender, apreender e descobrir o mundo que a cerca, menos encontrará nele recursos, menos ousará afirmar-se como sujeito; se a encorajássemos a isso, ela poderia manifestar a mesma exuberância viva, a mesma curiosidade, o mesmo espírito de iniciativa, a mesma ousadia que um menino.
BEAUVOIR, 1967, p. 22
Se a primeira parte da citação anterior aplica-se perfeitamente a Marcela, a segunda referencia diretamente Isabel que brinca de subir em árvores como Sérgio. A diferença de atitudes, entretanto, gera contraste entre as meninas e desconserto no representante masculino, que se espanta com a habilidade de Isabel: "— E você sobe em árvore feito um menino." (MACHADO, 1982, p. 34). Curioso notar que Sérgio, mesmo assumindo um discurso masculino tradicional em relação a Marcela, não se opõe ao fato de Isabel pular o muro junto com ele para pegar frutas. Nesse contexto, deve-se considerar que o menino está também inserido numa cultura que por muito tempo ratificou essas distinções de atividades para mulheres e homens.
A protagonista, que até então não se preocupara com questões ligadas aos papéis ditos femininos, diante das palavras de Sérgio, fica abalada. Isabel mostra-se preocupada com a imagem que o menino faz dela e se ele preferiria Marcela com sua fragilidade. Então, a voz de bisa Bia sugere que ela finja ser frágil para descaracterizar aquela imagem "pouco feminina" de moleca:
— Viu só? Ele acha você parecida com um menino. Homem não gosta disso. Agora ele fica pensando que você é um moleque igual a ele e vai levar uma goiaba de presente para aquela menininha bem arrumada e penteada que está esperando quieta na calçada... Finge que se machuca, sua boba, assim ele te ajuda. Chora um pouco para ele cuidar de você....
MACHADO, 1982, p. 34
A idéia de que homens não se interessariam por mulheres não-frágeis era comum para a geração de Bia. Dessa forma, perpetuava-se o princípio de que a mulher, dada sua fragilidade "natural", necessitava de proteção masculina. Assim, a passividade que caracterizava a condição feminina contrastava com a masculinidade baseada no movimento e na liberdade de ação. A sociedade de base patriarcal incentiva a independência masculina e rotula o afastamento feminino da passividade como perda da "natural feminilidade".
Em meio a esse momento de insegurança de Isabel, a voz do futuro, representada por Beta, recomenda que a menina assuma quem realmente é: "— Não finge nada. Se ele não gosta de você do jeito que você é, só pode ser porque ele é um bobo e não merece que você goste dele. Fica firme." (MACHADO, 1982, p. 34).
Romper com as imposições sociais dos gêneros não é um processo fácil e rápido, mas deve passar por uma etapa de conscientização e de desnaturalização da suposta "fragilidade feminina". Inserida nessa tensão, dialeticamente representada pelas vozes do passado (Bia) e do futuro (Beta), Isabel resolve fazer o que julgava melhor. Coerente com a idéia de que a imagem de "bonequinha de louça" de Marcela a irritava, assumiu o risco de agradar ou não a Sérgio, em vez de se fazer de vítima. Essa decisão, entretanto, exigiu um processo de reflexão que perpassa todo o incidente, na busca de uma identidade feminina própria.
O amadurecimento da protagonista é permeado por um jogo de linguagem que explora as categorias gramaticais dimensivas: o diminutivo ligado à figura de Marcela e o aumentativo associado a Isabel. Nessa perspectiva, ao final da brincadeira, a voz narradora brinca com os sufixos na caracterização das meninas: "E foi assim que Marcela Marcelinha ganhou uma goiaba velha velhinha, bichada bichadinha. E enquanto ela reclamava com aquela voz de choro chorinho, fui para casa com o coração sambando aos pulos. Cada pulo pulão." (MACHADO, 1982, p. 35).
Sendo assim, a associação do diminutivo ao papel de fragilidade desempenhado por Marcela sugere que ela seja menor ou seja diminuída. Portanto, pode-se entender também a referência a uma figura feminina que ainda não cresceu, precisa se tornar maior, aumentativa. Já Isabel, através da brincadeira, cresceu; afinal ela não "tinha voz de chorinho de neném" como Marcela, era alguém que escolhera seguir a voz do futuro. Assim, sendo ela mesma, transformou-se em –ão, enfrentou dificuldades, não se fragilizou para ser cuidada e ainda conseguiu como prêmio um beijo de seu paquera.
Embora o livro Bisa Bia, Bisa Bel tenha sido publicado na década de 80, as inquietações de Isabel frente às vozes que se trançam num diálogo entre passado, presente e futuro mostram-se bastante atuais. Apesar das inegáveis conquistas femininas, ainda é necessário discutir questões referentes aos valores culturais instituídos pelas brincadeiras e pela literatura desde a infância.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: II a experiência vivida. 2. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1967.
BOURDIEU. Pierre. A dominação masculina. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
BRASIL. Lei Federal nº 8.069, de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adolescente.
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2004. (Coleção Questões da nossa época; v. 43) Adaptação Gisela Wajskop.
ECO, Umberto. Seis passeios pelo bosque da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MACHADO, Ana Maria. Bisa Bia, Bisa Bel. Rio de Janeiro: Salamandra, 1987.
ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
[i] Para mais aprofundamento dessa questão, recomenda-se a leitura de ALTMAN, Raquel Zumbano. "Brincando na história" In.: PRIORE, Mary del (org.). História das crianças no Brasil. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2006. p. 231-258 e BENJAMIN, Walter. "Rua de mão única". In.: _____. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. 34. ed. São Paulo: Duas Cidades, 2002. p. 103-110.
[ii] Essa expressão é usada por Ana Maria Machado como título do capítulo VIII da obra em exame.
[iii] Essa idéia é apresentada em Vigiar e punir (1975) e desenvolvida em outras obras do escritor como História da sexualidade I (1976) e Microfísica do poder (1981).
[iv] Note-se que a caracterização dada para Isabel, desde o título do capítulo, associa-se ao ato de assoviar, procedimento tido como masculino.
[v] Pode-se considerar que a posição "em cima do muro" também denote a idéia de indecisão em que se encontra Isabel.



