Entrevista à revista Alternativa
Entrevista cedida à revista Alternativa, de circulação no Japão
Qual o criterio que os pais devem levar em conta na hora de escolher livros para os pequenos?
Escolher livros para outros leitores implica considerar um conjunto de fatores, sobretudo se estivermos tratando de crianças. Nesse processo, é de suma importância observar a faixa etária da criança em consonância com a fase de desenvolvimento em que ela se encontra. Cada uma das fases de desenvolvimento apresenta um conjunto de características que interferem no nível de interesse pelas atividades, principalmente as mais elaboradas como a leitura.
É possível incentivar a leitura desde antes do nascimento, com o bebê ainda na barriga. A melodia da voz materna contando histórias cria um vínculo afetivo que pode ser resgatado nas primeiras fases de desenvolvimento quando a criança ainda não tem autonomia de leitura. O afetivo envolvido nesse período inicial de vida da criança cria um vínculo positivo com o objeto livro que passa a fazer parte do cotidiano do indivíduo desde cedo.
Para crianças pequenas, podem ser oferecidos livros que de fato são brinquedos para que se crie a relação prazerosa com o manuseio do livro. Nesse grupo se incluem livros de pano, de banho e outros em que o efeito lúdico é o principal. Geralmente esses livros são brinquedos que favorecem a ambientação do livro com o cotidiano infantil, uma vez que a leitura é um ato de base cultural muito forte.
Quando a criança já começa a dominar razoavelmente a fala, cresce a importância da figura adulta que conta histórias. O desejo por conhecer e até por ouvir várias vezes a mesma história precisa ser alimentado por um leitor. O papel desse adulto leitor é muito importante para gerar interesse pelas narrativas e suas ilustrações. Como conseqüência desse processo, o interesse por conhecer as letras e ler sozinho surge naturalmente na criança. Por conta disso, nesse período os livros devem conter muitas imagens atrativas e de qualidade em consonância com texto em pequena proporção. Com o crescimento da criança e o nível de concentração apresentado por ela, pode-se ampliar o tamanho do texto em relação à quantidade das ilustrações. Nessa fase, a criatividade é importantíssima e devem ser usados fantoches, máscaras, fantasias, objetos caracterizadores, para que a criança de fato viva a história. Nessse momento, pode-se também inserir teatro na realidade infantil, mas sempre com pequena duração por causa do nível de concentração infantil.
Na fase inicial de alfabetização, ganham destaque a palavra e as construções frasais. Brincar com a linguagem e com seus recursos estimula o processo de alfabetização. Nesse momento, a poesia se mostra como uma excelente fonte de textos, bem como os trava-línguas. Construir e desconstruir palavras em suas sílabas, brincar com novas combinações de vocábulos são brincadeiras que podem interferir significativamente na formação do futuro leitor autônomo.
O fato de a criança ter ingressado na escola não significa que a responsabilidade dos pais no incentivo à leitura de seus filhos tenha acabado. Se a leitura não fizer parte do cotidiano familiar, fica mais difícil que a escola dê conta de seduzir para o universo mágico da leitura.
Como fazer para estimular as criancas a gostar de ler?
Muitas vezes, as pessoas acham que estimular a leitura significa dar de presente um livro ou obrigar a criança a ler algum livro dado a ela. A leitura é um ato cultural e, no Brasil, essa atividade não goza de grande prestígio. Para começar, deve-se considerar que o leitor é uma pessoa que possui gostos e preferências como qualquer outra. Por conta disso, impor leituras desde cedo pode não funcionar como estímulo e até mesmo gerar desinteresse. É importante conhecer os gostos da criança, os assuntos que mais atraem sua atenção para que se possa oferecer um texto que atenda a essa demanda. A escolha do livro e o processo de compra exigem um pouco de empenho do adulto que compra, pois há muitas opções no mercado. Com certeza, o preço não pode ser o primeiro item no processo de escolha, pois o que importa é a qualidade do texto, das ilustrações e do próprio livro em si (capa de qualidade, folhas de papel que não se soltem com facilidade, tinta das ilustrações que não tenha cheiro forte etc.).
O adulto comprador deve conhecer o livro para falar sobre ele, indicar leitura, como se faz cotidianamente com filmes. A literatura e a leitura precisam fazer parte do cotidiano familiar, assim como se comentam os fatos da novela. Cotidianamente há outros problemas que interferem na relação com a leitura, como colocar de castigo uma criança e obrigá-la a ler como punição. Diante dessa atitude, cria-se uma relação de ódio com a leitura e aversão ao livro, pois ele ficou associado com algo negativo.
Enfim, a leitura precisa fazer parte dos assuntos familiares, os pais leitores estimulam muito mais seus filhos a lerem do que os que presenteiam os filhos com livros que jamais abriram. Delegar a responsabilidade de incentivo à leitura para a escola é uma atitude muito cômoda, mas pouco eficaz.
Por que e importante estimular a crianca a gostar de livros desde pequena?
O fato de uma criança não ter contato mais efetivo com livros desde a infância não é determinante para que ela não se torne um adulto leitor. Criar o vínculo leitor-livro desde cedo, sem dúvida, favorece o desenvolvimento de um futuro leitor. Sabe-se que os livros são o tesouro da intelectalidade e representam poder, tanto que ficaram historicamente marcadas as queimas públicas de livros em governos totalitários, além da censura. Partindo do pressuposto de que palavra é poder, não favorecer o acesso à leitura significa não oportunizar àquele indivíduo o acesso a esse legado cultural da comunidade a que ele pertence. O desenvolvimento do senso crítico está intimamente associado ao repertório de conhecimentos que o indivíduo possui e as artes têm papel crucial nesse processo, dentre elas uma em especial: a arte da palavra.
Em epoca de globalizacao, internet e tecnologia avancada, ler no computador pode ser uma saida para estimular os pequenos ja familiarizados com a maquina?
Na verdade, lê-se muito pela internet, são e-mails, blogs, orkut e muitos outros suportes em que o texto escrito aparece contextualizado. Como tais procedimentos são comuns na vida de crianças e adolescentes, não se tem preguiça de passar horas diante do computador para colocar em dia os contatos virtuais. A leitura, entretanto, não ganha ênfase em diversas instâncias e isso se reflete diretamente no pouco interesse pela leitura manifestado nas classes menos favorecidas economicamente e escolarizadas. A quantidade de livros que um indivíduo lê por ano varia muito dependendo de fatores como classe social e nível de escolarização o que nos leva a crer que haja uma ligação entre esses fatores e as questões culturais. Para as classes mais abastadas, a leitura faz parte da realidade de um número significativo de pessoas, mas as classes média e baixa são incentivadas a dedicar horas de seu tempo livre com a televisão. Não é falta de tempo para a leitura, pois em países mais desenvolvidos as pessoas lêem em ônibus e metrôs e o tempo empreendido numa jornada para o trabalho poderia oferecer esse tempo. A questão, insisto, é cultural, pois o Brasil não investe para formar cidadãos leitores. Portanto, o computador pode ser uma ferramenta para que se chegue ao texto literário, mas se não se criar interesse nesse tipo de leitura não fará diferença alguma.
Os pais podem sugerir os temas e as obras, ou o melhor mesmo e deixar a crianca escolher o que quer ler?
O mais produtivo na hora de escolher leituras é a conversa sobre elas. A co-participação de pais e filhos, além de favorecer o relacionamento e ampliar o diálogo, torna o processo de leitura mais democrático. O desejo principal é desenvolver um leitor autônomo que busque suas leituras sozinho, por isso é importante valorizar a participação do maior interessado: a criança.



