Branca de Neve

Recolhida da memória popular alemã, a história de Branca de Neve tem como seus compiladores os Irmãos Grimm. Esse material foi publicado entre os anos de 1812 e 1822, juntamente com outras histórias, no volume entitulado Contos de Fadas para Crianças e Adultos (Kinder unde Hausmaërchen). Este texto não é de origem germânica, mas já estava incorporado à tradição oral germânica desta época.

Publicado na época do Romantismo, apresenta diversas características referentes a este momento literário. O sentido humanitário está muito presente. Pode-se citar como exemplos a sensibilidade do caçador em libertar Branca de Neve, além da recepção dos anões à bela moça. Não se percebe interesse por parte dos anões ou caçador em salva a vida da princesinha em troca de dinheiro ou favor.

Há o predomínio da esperança e da confiança na vida, os personagens lutam por seus ideais, em sua maioria de cunho humanitário. Nota-se uma preocupação fundamental com a sobrevivência e as necessidades básicas do indivíduo. Em oposição a isso, a insaciabilidade humana causa transtornos sem tamanho, podendo até prejudicar a si mesmo e aos outros seres. No texto, a Branca de Neve luta por sua sobrevivência sem esmorecer, enquanto a Madrasta por seu ideal de beleza absoluta, contrapondo-se.

A ambigüidade da figura feminina fica bem explicitada nessa narrativa. é a figura feminina que causa o bem e também o mal. Mostra o resgate através da bondade e do amor, contrapondo-se a esses valores estão os prejuízos causados por ardis e traições. Explicita-se a base do confronto: Branca de Neve X Madrasta.

A violência não aparece de forma clara. O caçador não mata Branca de Neve, somente abandona-a na floresta. Daí pra frente, ela sobrevive por seus próprios méritos. A Madrasta, apesar de sua grande inveja em relação à Branca de neve, não mata de forma sangrenta ou dolorosa, apela para o envenenamento.

Todos os contos de Grimm pertencem à área das narrativas do fantástico-maravilhoso, por pertencerem ao mundo do imaginário ou da fantasia. Branca de Neve, especificamente, pode ser caracterizado como conto maravilhoso (histórias que apresentam um elemento mágico, sobrenatural, integrado naturalmente nas situações apresentadas).

O elemento mágico presente nesta história é, sem dúvida, o espelho, autor das revelações que desencadeiam os fatos. Em nenhum momento questiona-se a existência mágica desse espelho, pelo contrário ele é um elemento inerente aos fatos sem perplexidade. Também não se questiona os critérios adotados pelo espelho para determinar quem era a mais bela, simplesmente se aceita a sua escolha como incontestável. Mais interpretações de cunho psicanalítico podem ser feitas em função da presença do espelho, ver a si mesmo, enfrentamento de seus próprios medos.

A estrutura narrativa é simples, girando em torno de um só núcleo dramático: o problema de Branca de Neve com a Madrasta. Todos os outros acontecimentos dependem dessa intriga principal. Desta meneira, torna-se muito mais fácil a compreensão da história por parte das crianças.

Um elemento constante nos contos maravilhosos é a presença de seres prodigiosos. Com certeza, os 7 anões representam esses seres prodigiosos que interferem no destino da personagem central, ajudando-a. A escolha do número 7 para quantificar os anões reproduz uma estrutura comum a esta natureza de contos. Acredita-se que estão ligados à simbologia esotérica dos números. Há interpretações diversas para essa escolha numérica, que merecem um estudo mais aprofundado.

As qualidades exigidas das mulheres da época são a beleza, modéstia, pureza, recato e, principalmente, submissão à figura masculina. Muitas vezes, os problemas entre pai e filha são a temática central. Todos os acontecimentos da história decorrem de uma situação gerada pelo pai de Branca de Neve ao casar-se com a Madrasta. Os anões, ao avaliarem a situação de Branca de Neve como hóspede, consideram o que seria melhor para ela. Ela acaba desobedecendo às recomendações doa anões, provoca com o erro a sua "morte".

A solução dos problemas e a satisfação dos desejos estão presentes no mundo do maravilhoso e fazem parte dos ideais Românticos. Mesmo com aviolência minimizada, as ações merecem o mesmo destino de antes: prêmio para o Bem e o castigo para o Mal. Todos os seres humanos devem ter desejado, alguma vez na vida, que seus problemas pudessem sempre ter os mesmos desfechos dessas histórias: no fim tudo dá certo, mesmo que para isso seja necessário um passe de mágica.


Fonte: "A Literatura Infantil"
Nelly Novaes Coelho


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